Poema sem cor

A dor lateja quem a enseja
Artérias nervosas em pulsação
A carne vermelha do coração
Se amorfa podre a quem deseja

Pulsos estéreis, fácil laceração
A lamina escorre, comum peleja
Vida esvaece, nem a proteja
Do corte sujo das próprias mãos.

Ai! Dores- emendas que apavoro
Foram amargas em mim, provação;
Esmagando cada sentido (emoção);
Ermo, palavras tristes choro.

Sofro no cais da melancolia
Espasmódico em intentos maldosos
Nesses vis pensamentos lodosos
Se austera indiferente, a agonia.

Que sombras me servem a guia?
Que negro estático reconheço?
Reconhecido de mim, pereço
Entranhando amarga extravia

Porões, ratos, demônios, inseto
Respondam: qual estrada leva?
Porque as lagrimas me entreva
Vontade aguda do infecto?

Cuspo, choro a efêmera carência
Toda a lembrança do que senti
Caricias, espanco, mentiras vivi
Agora em lápide prego a demência.
 

topo

 

 

Rimas pobres

Quando nasci, me faltou boa rima
Em colos diversos amanheci
E dos livros perversos que li
Esqueci aprender essa esgrima.

Nesses acentos de rimas poucas
De quem estrondeia o passante
Com literatura, pobre e errante
Entrelaçam nuns versos loucas.

Penso pesado, acho pouco meio
Abalo em estrofes versos brancos
Um ou dois bons, o resto: mancos
De poema que não sei fazer, creio.

Que quantas letras me são primas
Mas em vão de nomes me perco
E das palavras fiz um cerco
Não tendo eu como me exprima.
 

topo

 

 

Mundo estranho

Construirei entre mim paredões,
Um me afasta, outro me recupera
Circunscritos todos em esfera
Onde planejo arcos e grilhões

E nas faces opostas ao vulto
Em curvas os lados imperam.
Passagens terceiros esperam
Eternidades de amor e luto

Mas qual saída irei buscar?
Nas tantas poucas medidas
A matéria tranca em feridas
Armas e truques que devo usar

Construí forma desconhecida
Na aresta da deformidade
Mundo pequeno, grande cidade
Na mais alta brecha a saída

Escolhi pormenor estranho
Refletido em vasto espelho
De folha e galho vermelho
Criação de formas arranho

E olho a terra em grão e cio
Ondas negras em quebrar agudo
Silencio as palmeiras, mudo
Saúdo o céu, marulho espio

Vistos barcos do mar oriundo
No olhar pobre que sustento
E no amarrar de cordas, lento
Reforço dobras de meu mundo.

 


topo

 

 


Convulsão

Trago um ódio em olhos crivos,
Floresta densa e crua me espera.
Na podridão fétida entre dentes era
Carne crua, antes corpos vivos.

O espolio das dores tristes impera
No coração esmagado que dura;
E nas vielas escuras, verme cura
Mordida feroz dessa quimera.

Pessoa infeliz, discurso que uiva
Grunhidos nefastos entoam em balsas;
Disfarçando a pena em palavras falsas;
E nos mortos sentimentos que cuida.

O horror - falsas lágrimas lateja;
Escorre a gota em face medonha
Enquanto a asco se recomponha,
Vil, planeja a mentirosa peleja.

Simpatiza a cor endêmica da desgraça
No vômito perdura a alma crua;
Espelha nos regurgitos, nua,
A insensatez mórbida de sua graça.

Trago um ódio vermelho, encarde
Músculos que movem o desgosto.
Felicidade é mais que o oposto
Do impulso que no crânio arde.

Unhas negras de lama encrava
As vísceras do homem perdido
Sucumbe à laceração, esquecido
Das chagas que à face escava.

Esboça o mínimo rancor agudo
Gritando silêncio em portas erradas
Cortando peitos, exímias flechadas
Num assassínio infernal e mudo.

Lembrança, ferida pulsante e devassa;
Inflama o fosso asquero da peste
Onde a saudade travestida em veste,
Traiçoeira em enxames passa.

Cadavérico, enche de imortal repúdio
O sentimento onde guardo dejetos;
Pensamentos de imagens ruins repletos
Aumentam meu ódio estapafúrdio.
 

topo

 

 


Um bem-te-vi roubou meu sonho


Hoje eu sonhei, acordei bestificado
Pois num sonho enigmatico, surgiu
Na mémoria amanheceu pretificado
Poema lindo que jamais se viu.

E nos esquecimentos, maravilhado
Continuei a buscar versos que fiz
Enquanto uns havia encontrado
Bem-te-vi, na janela, pousa e diz:

"Bem-te-viiiiiiiii",- que grito agudo!
Assolaste minha sorte de invento
E meu pensamento deixaste mudo
Frustou-me todo e qualquer intento!

Onde esta meus versos! Devolve!
O brilho do sol queime as tuas asas!
E desculpas naturais nao revolve
Ódio que apodera e arde em brasas

Funesto dia, onde enterrei o ensejo
Pássaro furtou e pecou por mim
Roubou-me um sonho, coisa que vejo
Símbolo: os tempos chegaram ao fim.
 

topo

 

 


Me Conheci


Ontem me esqueci, nao olhei, nem me vi
Sombras de um caminho vasto criei
Linha de palavras tortas escrevi
Mundo de assombrações despertei

E nas vielas negras por onde andei
Fraudei os esquecimentos que quis
Foi quando mais a luz encontrei
Digladiando o passado infeliz.

E hoje acordei imóvel, maravilhado
Pois de todos os desejos que almejei
Dentre tantas façanhas que intentei
A maior proeza havia alcançado...

...me conheci.
 

topo

 

 


Desconsumaçao do Amor


Procuro o mesmo amor que me segue;
Mas vai-se em sonho mais uma peleja
Por que sou eu quem mais a deseja
Sabendo eu: nunca me serás entregue.

Tenho nos cantos uns sorrisos teus
Que me escravizam neste grilhão
Atando-me os olhos e o coração
Roubando segredos e medos meus.

Faz-me amar este amor são;
É neste empurrão sem aviso,
Que, como quem vila o sorriso,
Acomete o siso à pouca razão.

Cabelos em fios, ruivos em chama
Cativam a mais modesta lembrança;
Tempo que a saudade e a cobrança
São crias perenes de quem ama.

Esse rosto alvo altivo de brancura
É um pormenor lascivo que almejo;
Os lábios que com os olhos cortejo:
Exemplo firme da divindade pura.

Mas se minha precisão é exagero
Dentre a paz lúcida da tua mente,
O que sinto não é o amor que sente;
Se tua recusa for meu desespero;

Se eu não tenho gosto nem cor;
Se perece esta duvida em pódio:
Se eu não mereço nem o seu ódio
Como posso merecer o seu amor?

 

topo

 

 


Ah! Que Tristeza


Ah! Que tristeza! A certeza me abandonou
Nesse passado que não me pertence
Nesta vida estática que não me vence
Conforma-me tudo que ela não deixou

Quantos infinitos ainda me apavoram
Nos universos que ainda me restam
As realidades podres que me molestam
São sentenças débeis que revigoram

Nestas linhas toscas que apascentam
Surgem letras fúteis que eu carrego
Possuem num verso amargura que nego
E noutro lado segredos que contentam

Ai! Que saudade! O riso me visitou
Levou consigo tudo que me remonta
E de minha consciência apenas tonta
Foi , com certeza, onde mais furtou.

O inútil é quem tem me recuperado
Da fossa escura de uma tal mente
Sombreando com o descontente
A tez do meu destino inalterado

Ah! Que ódio! A saudade me aleijou
Deixou comigo cicatriz indigesta
Olhos vermelhos que me protesta
Uma tal paz que não provou.

Soubesse outrora a minha sina,
A janela do esquecimento abriria
E a ventania da vida correria
Ao alvo certo a que destina.

Deus! Onde escondeu as respostas?
Onde ensaiastes com o descontento?
Por quais caminhos ficou o invento
De felicidade, que não me mostras?
 

topo

 

 


Estudo etmológico

Quero inventar novas palavras
Um “b” ou “a” , coisas que vejo
Numa parte ou duas eu pelejo.
Entravestando outras entravas

Palavras mortas, mudas em mi
Em três, divide exato e esmo
Me colocando nos “mim mesmo”
Mesmo essa letra que comi

Depois, esqueço, o acentuado
Umas poucas virgulas depreço
Em telhado que desconheço.
Num ba, be, e si, molhados

Trincafecho um bom carneiro
Espasmeio um tal sofanete
E como dilacero o sabonete
Descomponho um letreiro

topo

 

 


Pass for you

Acordei, metamorfoseando em vício
Espantos, gritos, até a loucura vi
Quando em folhas secas escrevi
Historia minha, fim, meio e inicio

E no vício que li, das letras
Que escolheram face melhor
Linhas, tintas e tempo pior
Débeis pontos em tiras pretas

Cego, os dedos frágeis deslizam
Entres vastos polígonos retangulares
Manchando as margens lineares
Palavras de ultimato se batizam

Passado meu a qual tudo remonta
Angustia, dores, ocasiões medidas
Pontos fracos nas tênues feridas
Onde cavaleiro do tempo, triste monta.

Historia minha- frágil- em tempo falha
Dissolvida em pó, em madeixa alheia
Onde Hora anos ilustres encadeia
Hora contra feroz tempo batalha

E nessa mortalha de servidão
Dantes do siso eu mal apego
Poucos motivos ao sorrir alego
Lembrança afetuosa da solidão

Que por pares, cita o sermão:
Onde mente em pranto desagrega
Põe-se vasto manto da entrega
Que vai de ossos ao coração.

topo

 

 


Madre manto


Rancor enorme é todo auspicio
Silencio agudo é que me apodera
Quem a outros o sentimento esmera
Mesmo Mãe, é um tolo vicio.

Crendices que mãos erradas planeja
Confiei nos falsos olhos que vejo
E no precipício infindo manejo
Vergonha, costurada em mim lateja

Nuns poços fedidos lacrimejo
Onde mal o passado se espelha
Onde as coisas boas destelha
Sentimento nascido, a morrer vejo.

Minha vontade em sono, perece
Porque apesar dos mitos que quebrei
Lâminas, mentiras, verdades inventei
Noto em vão sumir minha prece.

topo

 

 


Ônus que mal passo

Em qual mão perdi a consciência?
Pois justaposta ao caos, à onipotência
È onde mais perfuro os olhos.

E na tristeza, onde mora meu rosto
Tinge mascaras amenas, sobreposto
Escondendo em si a podridão.

E a retidão para que serve?
Para que a mentira e sua verve
Dissimulem mais uns canteiros?

E uma vida triste, que tal bueiro?
É desse esgoto que do mal cheiro
Se avilta e perece meu pulmão.

topo

 

 


Sem noite

Vestíbulos, os edifícios esmera
Em vasto estorpor, escuta;
Vida, entrada e saída, permuta
Em cognata triste, essa fera.

Elege o futuro melhor, claro!
Nos céus cintila a clareza
E sonhos de falsa beleza
Sucumbem em retas e aro.

Horizonte, em distancia nego
Desgraças maiores a porvir
E fareja o fracasso intervir
Planos que à vida entrego.

Profano, tristeza em permeio
Nas abobadas de concreto, misto
Onde o sol renova-se em cisto;
Hoje a noite, enfim, não veio.

topo

 

 


Água que corta

Raio , trovão , vapor ; lodo “áquido”
Rios , mares, oceano que vigora
Esvai-se doce num rastro liquido
Nos olhos verdes da mulher que chora

Enegrece céus dançante ao vento
Orvalho frio que banha a aurora
Chuva! Forte, cai num momento
E no outro escorre, vai embora

Vital antes , agora e ainda
Tempestade que serena e linda
Dispõe lágrima que forma e finda

Oh! Águas de sempre insaciadas
Molham a terra, correm em cascatas
Vem e vão como espelhos nas matas!

topo

 

 


Sinestesias

O amor é a razão dos sentimentos
É a chama da soberbidão
É a face da dor e do lamento
Um sopro de mágoa do coração

O amor é vida, receio e ilusão
É o perfume da razão ardente
É o mártir da alma e solidão
A paz da esperança transparente

O amor é fundo, vento sem direção
É caminhar num sonho sem temor
É ver o olhar nos olhos da paixão
É sentir do outro a mesma dor

O amor é o infinito horizonte
É ternura e vontade de pensar
A nuvem que viaja pela saudade
O amor é a própria razão de amar.

topo

 

 


Mais distante

Gostaria de poder fugir pra longe;
onde só o mar pudesse me encontrar;
onde só o sol pudesse me fitar;
onde só as dunas pudessem me esconder;
chorar e rir da manha ao entardecer;
entre as passadas do dormir e acordar.

Gostaria de ir pra bem longe;
levar comigo só meu espelho;
dentre as cores: verde e vermelho;
o que me pertence e o que me furtas;
dentre as palavras as mais curtas;
da frase, o mais valioso conselho.

Gostaria de ir pra bem longe;
deitar nos caminhos perdidos;
ouvir marulhos, lembrar amigos;
cansar no alto de um pesqueiro;
e fingir-me um marinheiro;
fitar os céus desconhecidos.

Gostaria de ir pra bem longe;
fingir cantar dançante ao vento;
e nas madeixas de um momento;
abraços tristes na areia;
das quais o sentimento permeia:
Paixão, amor, ódio e tormento.

topo

 


Curva e poeira


Ah, mas o silencio é questão finita
Do que apascenta a mente dolorida
As horas tristes do amor perdido
Suspiro ausente, sorriso esquecido
Sufoca o drama de pranto meu

Os braços curvos imitando o vento
Lembranças doces, pequenos momentos
A paz que jaz num túmulo falida
Uma voz cantando, tom de despedida
Vento levando som que já morreu

Ah, tortura lenta, esparsa e remota
De olhos abertos, sono que esgota
Que um dia ou outro feche a ferida
Dos tempos vivos de minha querida
Amor eterno desde que nasceu...


topo