Solidão

"Jaz aqui uma mulher de rara beleza que no curso da vida abençoada fez por merecer o paraíso divino"

Assim, talhado em lápide humilde permanecia o epitáfio banhado em chuva fina. Final de tarde, as folhas quase extintas esvoaçavam sob os pés de transeuntes e parentes cujo o pranto agudo, longe ia sumindo a medida que a terra recobria o caixão coroado às rosas alvas. A mulher faleceu de ímpeto, numa velocidade tão grande que por hora foi-se maior a estranheza que o pesar. O marido, inconformado, tornou-se assíduo nos corredores de hospitais e bibliotecas a procura de respostas que justificassem tão impiedoso ocaso do destino. Descobriu depois de certo tempo que sua busca de nada valeria, que tudo aquilo não passava de um pretexto pra dar um pouco de razão ao luto. Mas a inércia do seu sofrimento foi brutal, e ele, descrente de consolo pôs-se a isolar o mundo de seu meio; tempos após essa perda trancafiou-se em lembranças e cadeados no apartamento mais alto do prédio onde morava.
Dias, anos passados e sua existência ia diminuindo aos outros. Aproximavam-se os meses, o tempo se eximia, as horas encurtavam, entre ele e sua memória nada mais que a esperança infinda se avolumava, por que , de fato, não há sentimento diferente deste que cresça desmotivado de presença. Recostado sobre o sofá desmaterializara seu corpo em pensamentos, devaneios de sua mente apaixonada. O abismo sem fundo, escuro, ia se tornando terno; as lembranças fluíam mais e mais, o aprendizado a tristeza póstuma foi tomando corpo.
Não imaginava que pudesse substituir zelos tão grandes, tão enorme devoção que construíra em torna da esposa. Era como procurar no infinito algo inexistente. O sofá que todos os dias o recebia - como uma terapia no uso para o permeio de reflexões - já estava desgastado. A alegria mínima que confortava a esperança terminou por dar lugar a solidão crônica e a tristeza justa aos amargurados quando, sem querer, esquecia os contornos do rosto dela.
Nas manhãs, calçando as sandálias suadas arrastava-se sofrida e vagarosamente pela sala e com os olhos encharcados e audição viciada nas vozes fantasmas do passado cruzava as pernas e deitava as costas na parede a contemplar o grunhido uníssono das aves.
Numa noite, como sempre, dispôs-se sob o desaconchego do chão duro da varanda e ficou a fitar as estrelas por razoável tempo. Ele sabia que jamais retornaria a sua condição normal, mas ainda assim gostava de se enganar planejando futuros impossíveis regados às manhãs frias e àquela chuva rara que agora caía sob seu rosto enuveando os céus e seus sentidos ( pormenores que causavam estranhos lapsos de depressão). A noite, insone, fora a maior de sua vida; ao amanhecer já com os lábios rachados da maresia e cabelos tingidos de poeira percebeu que a luz do dia tornou-se desafio maior que o suportável . Num instinto sóbrio de amor e falseado de discórdia , sob a luz do sol, seu corpo pendeu à frente e flutuou no ar 3 segundos antes de esmorecer no chão espatifado por 4 andares e uma lembrança.

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O Observador e o Andarilho

Esta o (1) Observador sentado, com o pescoço torcido e o semblante calmo ele fita os céus negros. Vem o (2) Andarilho, cansado, sandálias arrastando a passadas monótonas.

2- Que vês amigo, que em teu rosto enobrece ares de gratidão?
Inerte o Observador alega:
1- É a noite. Ela é tão escura e fria. Tão cruel, altiva e prepotente que mesmo presenteada em brisa, adornada por ínfimas e infinitas constelações de brilhantes pulsateis nos alicia sentimentos de loucura e compaixão, que nos alimenta razoes sensíveis e nos defere com exatidão ainda que coberta sob o manto aveludado de nuvens negras as mais significantes inspirações, no entanto, mal sabe de sua beleza.
2- E por que diz isso?
1- Porque assim como o escuro não tem sombra e o amor não tem forma, a noite continua a iluminar-se de miúcias celestes e a clarear de prateado as nuvens refletidas à luz da lua. E mesmo dona da beleza e de todas as coisas que se apascentam no escuro sofre com o silêncio de tudo o que dorme renegando os seus encantos levados pelo sono do devorador de toda existência, o tempo.
2- Pois bem, apartir de hoje não dormirei mais sob o manto de constelações e o som dos grilos notívagos. Caminharei no escuro, agradecendo a noite, que mesmo castigada pela inconstância do frio e do silêncio dos povos, provém de beleza e frescor o leito dos homens.
1- És um homem sábio Andarilho. Mas, por que andas tanto?
2- Porque meu caminho segue uma estrada como as aspirações seguem a vida; e como a vida, é longo. Tem começo, um meio... e um fim

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A Mente e a Noite


Deitado em seu leito longe do calor e da urbanidade sonora molestantes ele sucumbiu à tentação do pensamento. Nada mais existia, só o seu corpo ereto e imóvel engolido em sentidos pelas curvas da mente. Estava a imaginar em sonhos lúcidos o caminhar da multidão que o provia de dúvidas; o amigo falso, dono agora de seu ódio, encarnado em mentiras desmascarou-se; seu alter-ego de meio de semana, frio, transbordando agruras imperdoáveis; a namorada que banaliza o amor, sonhadora inútil, tropeçava entre atos e palavras, pecou pela imobilidade de seu querer, esqueceu-se no tempo, perdida entre uma promessa e outra.
No imenso vórtice amorfo a sua mente vagava. Esquadrinhava-se sob as linhas da eternidade pesquisando um sinal de vida nos escombros lodosos do passado.
A perna tremeu. A mente excitou-se mais ainda. Que personagem extremo se avolumava em seu ego. A duvida, tentadora como é, algoz das certezas, nos porões fundos da melancolia trespassou o tempo incólume, privou-lhe o raciocínio emocional.
Quantas noites acordado embebido em pensamentos vagos os haviam transformado? Abriu seus olhos latejando à maldição das horas intermináveis de sua vida e arrefeceu suas angustias no ensaio de uma lágrima. Os contornos brancos e a geometria rústica da parede fadaram sua visão num instante. Tornou a cerrar as pálpebras, fechando os olhos a medida que o cansaço o consumia . Não sentia calor, mas o suor escorria-lhe as sobrancelhas. Novamente concentrou-se. Buscou nos cantos escuros mais passos que pudesse acrescentar à estirpe daqueles que o enojavam. Era tarde demais. Ele levantou-se, esgarçou as cortinas e sentiu a noite, o frio lhes refrescou a fronte, encantado encarou a lua alguns minutos. Voltou ao seu leito, deitou-se mais uma vez imóvel e ereto e fechou os olhos. Dormiu aliviado, refrescado à brisa noturna, apaixonado pela lua,...ébrio de tristeza.

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Eu e o avião


Alargava entre os céus nuvens brancas em pluma a desenhar minúsculas listras no horizonte ate o azimute sob minha cabeça. E por elas cortava em dupla hélice adornado em anil e branco parafernália voadora que tanto trespassava nuvens quanto formava tantas outras com seu rastro fumacê.

Eu sabia o que era mais achava muito maravilhoso o que "passarinho" tão barulhento fazia. Seguia reto emendando os raios de sol de uma ponta a outra com suas asas lustradas. E muito me espantava o modo como tangia a balançar seu corpo pendendo as asas em movimentos de abano de um canto a outro.
Os olhos arderam. O pescoço sentiu a entorse do esforço de olhar pra cima. Baixei a cabeça e procurei entre os campos floridos a sombra que se afastava despreocupada por entre a imensidão das montanhas.

Era um avião, explicou o mais velho. E compreendeu-me a vontade de voar tão livremente mas preso nas tais ferragens sob os campos que acostumei a ver do chão, campos cintilados em verde-amarelado curtindo do plácido deserto ate a encosta dos morros.
Sonhei assim, e acordei bestificado. Ensimesmado em graça e desejos insinuosos de torpor e beleza.

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Deformidade

Um dia desses presenciei uma coisa inimaginável, esbornia, sem explicação; eis que estava sentado na mesa de um restaurante (pra não chamar bar, afinal quem não quer ser rico) e devagar por trás das outras mesas anda uma cabeça, pequena, só o seu topo se revela entre copos e pratos e sob gestos de negação ela se aproxima num ziguezaguear em direção a minha mesa. Neste dia tinha resolvido sair só, queria espairecer os problemas da vida, me destituir das coisas ruins que afligem o homem moderno (dinheiro, mulheres e dinheiro). Continuei a tomar meu contreoux, e me despir das coisas que aguçavam minha preocupação. A cabeça que eu observava já com certa implicância parou, não a vi mais, pensei estar louco. Depois, já emaranhado entre os copos, e o cheiro do fumo, vi entre as pálpebras quase fechadas a cabeça a ziguezaguear, parei, espremi os olhos, era a mesma cabeça, catava os restos, e vinha mais rápida. Mas o que? O relógio marcava o meio da madrugada e aquela pequena cabeça a mendigar restos sob o assoalho de cimento banhado de cerveja. Foi no dia do jogo do Brasil. A criança, sem sono, comia contente, e os homens gracejavam as mulheres restantes, alguns sóbrios, outros indiferentes. Eu olhei, e chamei com o dedo indicador, a criança veio, estendeu-me a mão encarvoada e com olhos singelos, negros e magoados suspirou o consolo da miséria. 30 centavos é o que vale um sorriso. Lavei suas mãos com um resto de água e dei-lhe um pouco mais do que o era pedido, atenção. Mas a seleção ganhou, e os velhos homens dormem agora cegos, mas contentes de sua ignorância e insensatez.

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Lua cheia

Dia de lua, especial dia em que a esfera solitária e brilhante reboca as águas do mar. De mãos dadas ao "destino" ia passeando na orla dos oceanos, cabisbaixo a fitar os passos entre um suspiro e outro. Taisa, meu destino, me acompanhava incondicionalmente com os braços dados e as palavras silenciadas no fundo do peito. Sua tez suave e morena lhe corava a face todas as vezes que escorria seu rosto por entre os dedos na provação espontânea de meu sentimento edificado.
O sol já estava a um passo de afogar-se no horizonte espelhado dando lugar à penumbra iluminada sob o dossel eterno das estrelas. Por instantes, fiquei parado, imaginando os sonhos que outrora impossíveis me traziam os mesmo ingredientes daquele fim de tarde. No cair da escuridão tomei à parte o violão e a presença de Taísa que se mantinha linda iluminada em sua fronte pelo clarão das faíscas e chamas que nasciam de uma pequena fogueira. Estávamos sós - nós dois e a beleza interminável da noite a beira-mar. Os cabelos negros e lisos lhes caíam à face esvoaçados pela maresia constante. Com os olhos parecia me pedir inconsciente um gesto apenas de agrado. As mãos lânguidas, então, se estenderam e puseram em meu colo o violão com toda a doçura possível.
Os acordes brandos embalados sob o estampido das chamas e o sibilar dos ventos trespassaram as horas numa mágica do tempo até o porvir da aurora. Ficamos abraçados por muito tempo antes que o inadiável curso da vida nos separasse outra vez. Contudo não me ative ao desespero por que tinha conhecimento de que outras vezes mais teria oportunidades parecidas. E assim aconteceu. E assim vaguei na memória por toda a manhã até a maré espumante vir lamber-me os tornozelos. De uma a uma a esmorecer, as ondas lançavam-se aos meus pés em intervalos quase sempre entediosos e iguais.
Sentado em pleno contentamento no meio da praia minha manhã ia terminando sombreada pelas nuvens acinzentadas que ensaiavam no horizonte marítimo. Quisera eu voltar ao tempo e reviver todo o fantástico êxtase que a noite passada trouxera. Mas, enfim, apenas ficava sentado com os olhos cerrados saboreando os prazeres infindos de uma recordação recente ainda em pele. A brisa leve que batia em meu rosto e o marulho cada vez mais distante foram a senha perfeita de um breve sono. E meus sonhos, desta vez, tornaram-se menos inacreditáveis que a realidade dos poucos instantes em que estive encarnado na mais inimaginável felicidade que um sentimento possa prover.
Depois disso, até que o tempo selasse as pálpebras de meus olhos pela eternidade, Taisa passeou entre um sonho e outro dando cor às memórias quase extintas de minha recôndita juventude.

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Os pés sujos

Era manhã , os pés descalços ladeavam entre a vereda curta e o lamaçal que transbordava os bueiros. À frente o mercado; martírio de todos os dias, onde ele, o pai e os irmãos forçavam-se contra a higiene em intentos de sobrevivência. Por entre as barracas corria da rua até os fundos escuros do armazém seguindo o fio fino de esgoto que mapeava o traçado cruel do seu serviço.
Uma criança torta, Anísio. Filho de um pai magro e trabalhador, se lamentava por estimar esperanças que lhe pareciam impossíveis. Queria uma vida melhor- pensava ele. estava cansado de ir dormir com os pés negros do asfalto sujo, de ver seus pais na humilhação do trabalho pesado e , ainda assim, guardar a fome na consciência por , muitas vezes, não ter o que comer.
Mas Anísio não era um menino qualquer, tinha em seus sonhos planos de melhoria que casa vez mais consumiam sua mente. E , muito embora, fosse menino, já se percebia mais inteligente dos demais. Já se prenunciara a aurora em seus primeiros raios de luz quando Anísio acordou. Na ponta dos pés - para que não acordasse os pais- moveu-se sorrateiramente entre os poucos cômodos até chegar á cozinha. Devagar tomou consigo um pedaço de pão adormecido e lavou o rosto na pia, se voltou contra a porta e saiu com seu alforje em amarras na base do pescoço para um destino , que acreditava ele, lhe convinha melhor.
Ele não estava composto em desespero, sabia no fundo que precisava sair, buscar alternativas .Mas Anísio era uma criança, nos tortuosos caminhos até a estação mais próxima, divertia-se a esfregar entre os dedos o orvalho matinal da grama das praças. Ele gostava das ruas . A sensação de liberdade que sentiu o tornava mais forte. Corria de braços abertos contra o vento a cuspir a poeira dos areais. ainda não havia pensado num modo de mudar de vida , mas deliciava-se com seus momentos de luxúrias longe das regras de seu humilde barraco. Anísio aprendeu a pedir com uns amigos maltrapilhos que catavam frutas podres no mercado. Iam-se duas semanas desde sua fuga e ele já se sentia inútil à sua família. Culpava-se por não poder ajudar. e percebeu que pedir tornara-se tão humilhante quanto o trabalho do pai.
A esperança que ainda alimentava esvaiu-se em marginalia e revolta. Anísio já não lembrava da educação e humildade dos pais. Cansou de pedir, ele aprendera outro truque nas ruas , agora Anísio roubava. E ele ainda dormia com os pés sujos, ainda sentia-se humilhado , não tinha mais vontade e , por final, ainda era pobre e agora sem -teto. No passar de alguns anos tornou sua exígua esperança em ambição. Já não se contentava com os pequenos furtos e assaltos , queria poder sentir o gosto de partilhar a riqueza que estava por vir.
Mas sua investida durou menos que o bastante e Anísio por 5 anos acordou no chão duro da carceragem, fitado pelo sol descontínuo entre as sombras da grade. Aprendeu a arrepender-se e percebeu os efeitos colaterais de seu incomum desejo de liberdade. Nas manhãs que se procederam, o inconsciente voltou a ensaiar velhos traços de amizade e a saudade a marcar seus passos de volta pra casa.
Mas que infeliz! Nestes 15 anos já era finda a vida dos pais. Anísio então se pôs a vagar levado pela memória e o vento em busca das poucas lembranças de felicidade. Foi como uma miragem, o armazém como sempre esteve , largado entre porcos e esgotos abertos entre as vielas. Mas espere! Ele já não conhecia aquelas pessoas. Onde estavam seus irmãos, sua família? "Morreram todos de inanição" , foi a resposta menos dura que ouvira dos vários transeuntes e barraqueiros. Anísio sufocara o destino trágico dos irmãos em sua fuga. Agora ele entendia, e não mais se lamentou. Ajoelhou-se entre os paralelepípedos quentes e ergueu o queixo aos céus. Ele não rezou, apenas respirou o ar fétido que a vida o concebera e agradeceu a si mesmo por confiar nos conselhos subentendidos de sua mente corrompida e ingênua.

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Duas horas entre o céu e o inferno

Era verão íamos (eu e meu carro) chegando às voltas de um período repressor de 3 meses sem chuva. A poeira que envolvia os pneus ludibriava a proteção de borracha das portas entupindo as narinas de uma camada grossa e marrom de sujeira. O cabelo - duro. A boca seca e a pele ardida do sol calejante mesclavam-se à agonia do cheiro de estrume e o lodo dos riachos quase completamente vazios de vida. O desproposito da natureza com aquela terra outrora verde e florida era motivo de uma indignação maior que eu sempre amealhei ao longo de minha vivência acerca das causas naturais.
Nem bem tinha "apeado" e as juntas sedentas de energia já tremulavam por caminhar entre os desníveis do terraço de piçarra adjacente à casa. No intervalo entre a cerca e a porta da frente, o que vi chocou-me como poucas coisas na vida; a criança tinha , com certeza , menos de dois anos de existência , estava agarrada ao chão tal qual um animal rastejante; do lado uma calha rasa e já vazia turgia-lhe o colo de negro. Do outro lado um cercado com galinhas e porcos dividia a atenção das moscas que involuntariamente cobriam-lhe todo o dorso e face numa festa de baba e excrementos aos quais esfregava com as pernas miúdas. Mais adiante uma outra criança (mais velha) completamente nua pranteava em meio ao capim castigada pelo sol e as formigas que deliciavam os bagaços da cana moídos da forrageira. De prontidão, abismado, chamei o pai, meu agregado: - Paulo! Espia que teus filhos precisam.!- bravejei!
De inicio ninguém respondeu, então adentrei empurrando sem muito esforço a porta que já estava entreaberta. A sala era qualquer coisa vazia , de frente apenas uma mesa de madeira retorcida mordiscada nos cantos em que os insetos ordenhavam-se numa orgia pecaminosa todas as manhas. Um espelho rebuscava a parede oposta e ,provavelmente, ofuscaria a quem entrasse na casa ao crepúsculo . Nessa mesma parede três potes de água (como é costume nas moradias interioranas) ornamentavam o lugar, erguidos pelo jirau de tocos de marmeleiro. A fumaça continua e densa era hospede fluente entre os cômodos, visto que na cozinha não tinha uma chaminé própria, nem dinheiro ou civilidade pra o mais simples fogão. E por conta , era normal que os pequenos chamuscassem os dedos vez ou outra nas brasas que ferviam o leite de cabra todos os dias. Era um luxo estranho e peculiar. Aqueles odores me proporcionavam uma sensação de saudade justa aos que vivem envoltos, graduados pelas vantagens da natureza virgem e crua e a ingenuidade humana. Mas não se enganem, o caseiro a quem vamos conhecer era humilde sim, mas debaixo daqueles bigodes sisudos as palavras duras , roucas e inteligentes , ainda que banguelas de duas ou três silabas , fluíam numa naturalidade surpreendente; o que nos remete a duvidar do conceito de cultura imposto pelos mestres e enciclopédias da era moderna.
- "Apêa" doutor , nem esperava o Sr. nesse mês!- disse estupefato de cansaço, pois correra da roça até a casa o mais rápido que pôde pensando ele não querer contrariar o patrão. Sentado sob os tamboretes revestidos artesanalmente de couro de veado , apoiei os cotovelos nos joelhos e agarrei os pelos da nuca cabisbaixo deixando o suor escorrer pelo queixo e pingar por entre os dedos . Num suspiro espontâneo permiti escapar o depresso da viagem agoniada. Paulo, o caseiro, sentado com as pernas cruzadas, mudo, apenas espantava os besouros hematófagos e coçava o bigode entre um bocejo cavo e outro. - Então Paulo! O serviço que empreitei , você fez? - interroguei. Numa voz tranqüila ele respondeu: - Por certo! O "empeleito" tá pronto , só falta água pra limpá as laje que ficou.
Era um trabalho árduo ,eu sei, mas adaptado aos costumes dele não era empecilho maior. Paulo é daqueles que se acomodam ao sofrimento que as dificuldades da vida do campo impõem. Nascera , crescera e casara pobre . Não tinha mais desejos na vida do que a simplicidade que o acometia permite; mesmo assim carregava em seu rosto um ar de satisfação que destoava de sua vida como uma cicatriz causada pelo castigo de não ter escolha em ser simples. Por trás , quando a conversa já não tinha muito conteúdo , chegou Maria - esposa de Paulo. Debruçou metade do corpo recostando-se no canto da passagem da cozinha ate a sala. Os pés - descalços. Os cabelos negros e lisos recaiam sobre a testa sendo , vez ou outra, soprados do canto da boca com o tédio de quem recebe exíguas visitas. Ela nem ao menos se atrevia a desferir uma sequer palavra . Só observava eu quase sem jeito arrumar os botões da camisa que havia relaxado por causa do calor. Maria era muito bonita, muito nova também , casara-se e depois do primeiro filho ainda conversava com bonecas e formigas , contudo sabia mais da vida que qualquer menina urbana de sua idade. Maria fingiu não me observar por entres os cabelos , aproveitou que o marido estava de costas e fixou a atenção em minha boca com a imobilidade dos eximiamente concentrados Naquele momento levantei estendendo a ponta dos pés , justificando a preguiça num gemido profundo de sono e fome .
Depois de tudo arrumar e tomar um belo banho de açude barrento, enchi os olhos (e a boca) na ceia, comendo voraz totalmente desprovido de etiquetas. Há tempos não provava dos temperos do campo, e não tive vergonha em admitir estar absolutamente delicioso. Maria continuava a olhar com o sorriso contido nos lábios a cerrar as pálpebras em cada intervalo de choro que o filho concebia. Normalmente me sentiria agredido, frustrado, violado pelos olhos penetrantes mas discretos de Maria. Contudo , colecionava carinho pela sua forma doce de ver o mundo cada vez que me lembrava. À noite , pensando ...pensando esqueci o sono e quase sempre me cobria a mente a imagem de Maria, coisa que nem eu mesmo conseguia evitar , mas tentava devido ao respeito que tinha por Paulo , logo me sentia culpado por nada.
Na manha seguinte depois de não ter dormido, levantei-me com as olheiras habituais de um sono problemático que nutro desde os 14 anos. À mesa o desjejum pesado e convidativo rodeava o solitário prato à cabeceira acompanhando a única cadeira que constava. Senti-me cheio só em inspirar o cheiro dos ovos mexidos intumescidos de gordura de porco - como era a receita usual. Entretanto comi, e muito bem, ainda que travando uma batalha com as moscas e os cães. Era normal acordar muito cedo e comer muito cedo , então o sol ainda estava por clarinar , e a friagem da aurora fazia tremer com rajadas de vento por vezes cortantes. Saí devidamente aconchegado em camisa manga longa e fui apreciar o ar dulcificado dos campos que enverdeciam as encostas dos morros. Paulo breve passou e avisou que (como sempre) iria soltar a criação de gado (caprino). Não sei bem ao certo o porquê, me senti livre do medo de suas observações como se tivesse um passaporte momentâneo de segurança pra fazer não sabia bem ainda o quê!
Com uma cautela sobrenatural , virei e olhei de relance para o interior da casa, Maria estava agachada deixando boa parte das pernas à mostra , sua saia fendia lateralmente dos joelhos ate a base das nádegas permitindo uma visão privilegiada de suas coxas bem torneadas. Ela me percebeu mas não ousou trocar olhares , muito menos um dialogo . Fiquei ali , paralisado , não conseguia despistar a atenção que meus sentidos instintivamente dedicavam a ela. Paulo já estava tomando o caminho de volta a cortar os capins que invadiam a vereda, e eu apenas contemplava sua mulher como se um humano presenciasse Afrodite em seu seio sereno de luxúria. Neste momento me interrompeu a voz rouca de Paulo: - O "cumpade Chico tava cantando na roça" - disse ele disposto e feliz. -O quê? - perguntei aflito pois não havia me atentado à natureza da expressão. - O doutor tava pensativo. Ta pensando em ir embora ou em ficar mais uns dias? Parece ate preocupado. Ta? - indagou com um sorriso ingênuo escondido pelo grotesco bigode. - Como não? Nem ao menos tive oportunidade de lhes trazer novos mecanismos , trouxe ,porém, o dinheiro, que era isso que desejava falar. Terá que sair por um dia até a cidade comprar uns necessários. A expressão facial de Paulo mudou prontamente . Ele coçou o bigode, apoiou o braço na parede e intercalou sua fala por 5 segundos, os quais me deixaram extremamente ansioso. - Bom . Eu posso ir Dr. Mas não pode ser amanha nem depois, já que arroz ta no ponto de colher e não passa dessa semana. No caso então eu tinha que ir era hoje mermo né. Se o Senhô me permite? - Claro!! - disse maravilhado. A esta altura já me tinha despudorado de toda a moral justa aos decentes.
Só pensei em Maria , nas suas pernas limpas e brancas, no seu sorriso à meia-boca disfarçado; naquela única e perigosa oportunidade de me fazer maldoso, e de merecer por fatos fazer a viajem pós-morte ao inferno. Pensei também que estrada estava em ruínas, pois àquelas bandas depois de um bom inverno as torrentes que escorriam das serras esvaziavam todo o pequeno planalto pelas estradas mesmo , carreando consigo toda a linearidade e terraplanagem possíveis. Logo Paulo ficaria impossibilitado de chegar mais rápido em sua velha motocicleta corroída. Um cavalo certamente seria mais inteligente naquelas condições . Os incautos hão de se perguntar. Como eu e meu automóvel chegamos então? Ora! Viemos pela estrada vicinal contraria , uma que não vai dar em cidade alguma , só no asfalto da rodovia federal. Isso me daria mais seis horas de vantagem , logo teria todo o dia e noite livres a meus propósitos errôneos de prazer proibido. As horas corriam ligeiras e quando me dei conta já era quase meio-dia , nem almocei fui ver as vazantes de arroz e bananeiras que desenhavam boa parte do curso do riacho. Na volta depois de ter as forças eximidas pelo calor esfuziante a tarde se fez convidativa . Entre o silencio do campo e o sibilar dos ventos, cochilei sem querer num sono profundo despreocupado com o tempo.
"....atravessava o rio na barca do que parecia ser Caronte (o barqueiro de Hades, deus dos mortos) depois de cuspir uma pequena moeda de ouro logo após minha provável queda. Não tinha medo. Perdi todos os anseios. Na outra margem , após o remo trespassar dezenas de crânios , percebi o chão roxo e frio os pés reconfortavam-se nas frescuras daquelas terras. Mais adiante se encontrava um portal feito de um grosso entalhe de granito com palavras escritas em latim : " Aquele que por aqui passa perde toda a esperança". Não era possível enxergar o outro lado , uma bruma espessa pairava sobre os campos de rochas desnudas dos quais se viam os picos ao longe. Eu lia e re-lia a inscrição e achava estranho entender aquelas conjecturas numa língua que eu jamais aprendera sequer a mais simples palavra. Olhei ao redor , o barqueiro já tinha abandonado seu posto, a bruma se adensava cada vez mais e a terra fria ia se amornando entre meus dedos. Algo sufocava , não como o ar , mas o pensamento se concentrava naquela frase . Dei-me por conta da morte e percebi tardiamente o porque de meu estranho conhecimento. Aquilo era o inferno e não tinha todas as dimensões não se podia enxergar um teto ou cores bem definidas. Descansei as mãos na cintura e pensei comigo : Será que fui morto enquanto cochilava?! Lembrei então , do que sempre ouvi em vida, "Fulano a esperança é a ultima que morre...". Sentado ,exausto, conformado com desesperante situação comprovei a veracidade das falas. De fato, a esperança era o único sentimento razoável que carregava e ,por fim, teria que perdê-la tão logo vencesse os extremos do portão . Haveria decidir-se : ficar às margens do rio Aqueronte no limbo que escolhi ou dirigir-se ao sofrimento certo naquele inferno distinto , uma semi-produção de meus pecados. Entretanto não se podia imaginar isso agora , afinal ainda estava no limbo e eu só queria ter uma ultima oportunidade de retornar à minha casa de campo , comedido de meus erros , decidido a reconstruir a vida rumo aos campos Elíseos em minha próxima morte. Os pecados que cometi latejavam mais fortes em minha mente num tempo distorcido que envelhecia o corpo duas vezes mais rápido.Sim! Muito embora apenas em alma no limbo ainda permaneciam as formas humanas. Notei algo de muito errado nisso . Mas como? Era tudo tão real, a angustia entalou-me a garganta. Levantei decidido e contei de um até dez gritando ao final com todas forças : Acoooorde!!..."
Acordo. Sinto a consciência ausente por alguns segundos e abro os olhos, agora estava extremamente claro e úmido , suava por todos os poros. Agarrei algo que me pareceu ser um pano e pensei comigo: "Há um momento atrás era quase frio e eu podia enxergar alguns palmos a minha frente agora estou prostrado em um leito num clarão que me cega" . Neste instante recapitulei toda a existência que me provia e descobri que em contrapartida a meus desmandos já havia feito muita coisa boa em vida. Ergui firme o dorso tentando ficar em pé procurando uma base consistente onde pudesse pisar. O brilho que cegava era um facho de luz que curiosamente circundava meus olhos. Fitei em volta ; já era quase final de tarde, ao longe se podia ouvir os resvalos do chocalho nas ovelhas. E este certamente fora o maior alívio que já senti. Aquele chão duro e empoeirado de terra batida , encarnada da argila com riscos negros de carvão; o pano que agarrei e o leito em que deitei eram toda a oportunidade pedida em sonho. O inferno em que estive foi apenas conseqüência dos percalços de meus pensamentos ilícitos de fornicação e o suor e medo que senti eram agora símbolos de minha nova vida de benevolências.
Naqueles tempos os finais de tarde eram peculiarmente quentes , pois a serra a menos de três léguas dificultava a passagem dos ventos que vinham do norte .Com as leves passadas de homem novo desloquei-me lentamente até o quintal,...só queria tomar um pouco de ar , mas nem havia chegado a meu destino quando o espanto novamente me fez vitima e balbuciei: - Maria , mas o que é isso?!! Ela murmurou: - Por que o Sr. não me ajuda? Estava ela completamente nua a refrescar-se com suas suaves mãos embebidas na água de um pequeno pote. Duas horas antes não hesitaria um segundo sequer em tê-la por inteiro, mas já não era mais o mesmo. Não sei se fiz bem ou mal a minha índole. Sei que fiz o certo . Apenas abandonei o local decepcionando Maria . Tomei tudo que era de rápido alcance e deixei a casa pelo carro predestinado a uma longínqua viajem sem paradas nem final mas que , de certa forma, seria prazerosa por me ter na consciência a leveza que veio de dentro auspiciada pela experiência de ter conhecido em uma tarde o céu e o inferno dentre as vagas horas do sono mais perturbador do homem : o arrependimento.

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Um conto para o passado

Acorda. No espelho sua imagem mais nítida o observa. Era mais uma aurora de indignação e sofrimento.Seu rosto- barba por fazer. Franzindo a testa seu lado menos educado explora o mau humor matinal de cada dia. Era essa manhã a mesma que fora em suas últimas três décadas, nada mudou...a mesma casa, a mesma mobília, os mesmos rostos. Desde de tempos mais ninguém suportava as histórias melancólicas românticas; narrativas de seu passado jovem e a , quase sempre, inexeqüível procura da mulher protagonista. Não era uma narrativa comum, palavras bem postas, voz calma e angustiante a tornavam um conto.
- A mulher que uma vez fora minha, degreda-se em lugar qualquer que não a mereça...É linda, parafraseou o conceito da beleza, reiventando-a...!E hoje é mais um pedaço de tempo de que disponho a pesquisar seu destino... Já não tenho idéias de onde posso achá-la, mas sei que se, por ventura, o fizer em dia posterior a este não mais hei de separar-me à sua presença - dizia ele sempre.
Este homem, pobre final o reserva.Uma pessoa simples com uma fixação simples e recursos parcos. Morava ele em rua qualquer, de bairro qualquer, em tempo...qualquer. O que interessa é sua vivida tragicômica empreitada na busca por sua "bela amada", Gedara.

Em meados de tempos passados (aos quais não se tem notícia) eram comuns galantes e lépidos rapazes flertarem com paixões impossíveis, e como neste mundo pouco foge-se à regra não foi diferente com nosso amigo. Gedara: devidamente provida de bons costumes, sangue nobre,família rica. Um simples elogio, uma cantada ou um rosto bonito, talvez, não bastariam. Afinal a pobreza em tal lugar não era função a se exercer. Despossuir títulos enobrecedores, dispensáveis estes em face ao dinheiro, era um bom motivo a sua desistência. Enfim, ele não deu-se por vencido. Edificou seus propósitos externando seus sentimentos e sua muita vontade o precedeu no sucesso. Ela apaixonou-se no limiar da superação à gestão social e , para sua família, do aviltamento. Não mais importara se sua felicidade a custaria conforto. E seu futuro consorte a espera da desflora não conteve-se em si.
- Eu te amo Gedara - disse-lhe em vários tons.
Aqueles tempos, assim como conta suas histórias, foram de intensa felicidade. Momentos que o tempo cuidou de cedo minguar.
Foi num dia chuvoso, ele estivera por meses adoentado...a face descorada prenunciava seu falecer. Gedara demonstrou seu carinho e um beijo lento e molhado em sua fronte febril o silenciou antes de sua partida em busca da cura que a esperava em outras terras. Um dia marcado, talvez.E por diante a mulher , em sua desesperação incalculada, tomou seu manto e pôs-se a caminhar rumo ao porto. O que mais poderia motivá-la a uma viajem oceânica senão seu marido?No caminho uma rajada fria misturada em vento e chuva se interpôs ao seu passo e o cais. Estaria ela premeditando sua morte? Amedrontou-se, descobriu seu rosto do manto e inclinou a vista frente ao mar. Era chuva pouca, quem sabe momentânea. Respirou fundo, tomando ar e coragem e fora em navio embarcada ao final da última manhã em que, ainda jovem, viria seu companheiro. Que acontecera então? O mar eivado de ódio havia enfurecido em fatídico dia. No seu corpo, sutil, envolveu Gedara acariciando-a e em correntes de água submersa a acompanhou até uma graciosa praia aquém dos distúrbios de sua raiva. E lá ficou , linda, desmaiada sob as pedras, salva de ventos mais fortes e mares revoltos a espera de, quem sabe, um possível resgate.
Em tantos mundos, aquele homem a quem "jamais gostara como outro em seu leito" foi o único imediatamente não noticiado de sua perda.Uma naufraga, que não sabendo ele ainda viveria bastante pra tê-la em seus braços novamente.
Por exatos , mas não comprovados 30 anos, sua procura estendeu-se por tantas praias quanto semanas duraram-se sua determinação. Ao final deste tempo já era um homem abastado, daqueles ricos tristes descontentes do mundo.Mas , encontrando o que queria perdeu o seu estimulo com a vida.E uma carta (quase epitáfio) fora encontrada em sua última moradia, nas encostas de uma ilha,...quase apagada, ao lado, histórias de sobrevivência da mulher que amou como quem nunca amara ninguém mais na vida! Transcrita aqui agora se põe tal mensagem...

“O destino não lembrou-se dela. Não deu por qualquer rastro de esperança. Mas eu; eu sim conspurquei meu pensamento com essas tentativas falsas de ainda amar a mulher que não via a mais tempo do que posso recordar....Nestes três meses que seguem a essa narrativa agora descrita, me aventurei ao mar e à solidão em busca de Gedara.E consegui. Embora o cansaço tenha me afligido por mais vezes que noites bem dormidas, a prosperidade do meu ideal se concretizou e estava ali, na minha frente, como quem dorme, e descansa , e sonha....!”.
Estava estranha. Uma luz mais entorpecente que luminosa, refletia a sua fronte. Seu corpo tremia como em doença, mas suas mãos cálidas em meu ombro sugeriam o final de uma solidão de longa perdura. A esperança já suplantada pela saudade de ser livre não lhe dera muitas escolhas, senão o consumo do ócio. A página de um velho livro virada no canto da mesa propunha algo mais. Não, ela não esquecera a cultura humana. A chama social ainda externava acesa em seu pensamento. O martírio de uma sobrevivente quase entregue as fragilidades da ignorância brutal nativa, era agora um ínfimo rastro de lembrança em seu pesadelo maior! O sol avermelhado no horizonte abisso sombreava o oposto da palmeiras; anunciava a aurora e enternecia os olhos de beleza. Não era só a paisagem, não era só o mar, as folhas; o vento quente ardia às pálpebras, as aves pareciam apenas plumas brancas a pairar sobre as ondas e encostas esverdeadas. A grama esvoaçava-se tão belamente em vórtices de vento quanto o próprio vento desenhava figuras inocentes nas poucas nuvens que ainda restavam.
E tão pertinente era sua luxúria.Tão devotamente conquistada pelo esforço contínuo de viver. Seu corpo vendia loucura. Loucura a um velho já esquecido do tempo, do suor, e da androfobia que tanto lhe angustiara na infância.Ela não falava, nem sequer esboçava algo que pudesse ser meramente cognitivo. Apenas ficara ali, agarrada a seu mártir, o simples algoz do seu desespero. Verbalizar aquela cena é torná-la algo improfícuo, irracional.
Mas era uma pena, pois ela já não respondia inteiramente a vida. O delírio da escuridão já possuía sua carne. Sonho ou realidade? Uma imagem luminosa esclarecendo o manto à noite escura faz os olhos pasmarem; é como se a restasse apenas alguns segundos de vida. Seu corpo estático esmaecia lentamente em dor.A mente a havia traído! Ela não poderia mais lutar contra a trajetória imutável do destino. Naquele instante me veio a lembrança de Gedara, tudo agora era puro, tudo o que jamais sentira em vida me ansiava na sua perda. E então Gedara, linda e branca em seu feixe de luz, toca a sua pálpebra e emana de seus lábios sublimes um doce provérbio: quando a morte a luz lhe roubar, saiba morrer o que viver, não soube –e foi assim, perfumada de silêncio, que ela deixou a passagem entre os dois mundos.
Debrucei-me em pranto sobre as mãos ainda quentes de Gedara, e eram tão macias que qualquer pluma a arranharia.Doce até a morte.Recostei carinhosamente seu corpo na varanda. A brisa esvoaçava seus cabelos. O mar chorava lágrimas espumantes espelhando o sol num gesto de luto quase óbvio.Agora não queria mais voltar.Queria ficar e compartilhar o destino de Gedara, mas não naquele momento.Sentir a solidão da mesma forma e com e mesma intensidade! Esse era meu propósito.No navio a tripulação não queria me deixar ficar e então tive que sair ao anoitecer. No momento exato do inicio da ceia tomei um “bote” e remei....remei como quem se dirige furiosamente a escuridão do inferno. Mas não era isso que eu desejava. O que pleiteava era merecer o lugar ao lado de Gedara onde quer que estivesse.E fiz uma promessa, a de que nunca separaria meu corpo de tal ilha até que um dia este fosse tão digno quanto o de Gedara do consumo pela areia branca e terna.Um ingênuo eu sei ! Mas um ingênuo com princípios.
Sucederam-se dias então desde do meu encontro com o provável esquecimento. Caminhando, adormeciam as pernas. Já não sentia a maré espumante entre os dedos. Passei a vagar todas as tardes, sublime, num passeio vago levado pelo vento mareante. Quando me percebia, os lábios ressecados a pele descamada, levemente bronzeada, incomodavam; entretanto não impediam aquelas andanças incomuns despropositadas, ou, quando lúcidas, exploratórias. É minha distração, minha alegria , meu lazer nômade diuturno que durará - acredito eu - a eternidade enquanto em mim houver vida “.

Desde o dia em que encorajou-se a escrever à mão e carvão passaram-se anos. No meio tempo em que nada fazia perambulava ,ao léu, sob a ríspida camada rochosa que dava de encontro ao mar. A cada ano, surpreendia-se mais com as histórias de Gedara. Não eram contos ou invenções , cada palavra ali feita tinha propósitos, uma pequena forma de registrar sua consciência em algo civil. Afinal, apenas ela habitara aquela ilha.
Seu surpreendimento era consolável. Imaginava ele todas noites como teria sido se em sua companhia Gedara tivesse ficado.E dia após dia ele pensava naquilo, e pensou. Ele olhou mais uma vez a escrita e pensou...pensou dias, pensou no que seria sua vida caso nunca molhasse os pés na maré daquela praia. Retornava a imaginar quase compulsivamente o seu outro destino quando via aquele pôr do sol. As folhas caídas prenunciavam o outono. Os tempos de verdume chegaram ao fim! Ao fim encontrava-se toda a beleza daquela paisagem. E ainda assim, contorcido pelo sofrimento de um futuro mais próspero, consternava-se ao recordar sua promessa a Gedara. Um voto leviano de honra que fizera no passado, mas , que agora, não fazia significado algum, pois, o motivo que o acometera a tal ato, mediante sua fraqueza, não mais o fragilizara.
E lá, ele, sem nome, aturdido e ensimesmado no seu desespero não se via; nem à ele, nem onde pisava, tocava e sentia. Nada o separava de seu ensejo. Mas qual desejo? Se ao menos fosse mais fácil apenas desfazer o passado e entreter-se dos momentos de bonança, agora póstumos, ao lado fecundo de Gedara. E decidia, e se desfazia de suas decisões tão logo esfaimado e torpe seu corpo pedia por lucidez.
Não se trata de vício, nem de arrependimento mas, aquele homem , que um vez por si só jovem amou em todo o sentido pleno do sentimento, invariavelmente morria de pertinácia- num pedaço de ilha -por uma promessa feita não pela sua mente mas pelo seu coração.
E os dias passavam . O definhamento consumia, pouco a pouco, a carne o sangue e as vísceras de um homem já despojado da vida. Não mais bebia, nem atrevera-lhe a uma mesquinha fruta. A roupa pobre e rasgada que lhe restara, naquele momento, corava suas funestas passadas.
E o que não sabem é que toda a pureza galgada por Gedara era puro desatino. A confiança em sua índole superou a realidade, posto que, no dito dia em que abandonou seu lar - embora todos acreditassem - o que realmente motivara sua ida não fora seu esposo, como se pensava. Na embarcação a fornicação diabólica intentava a traição do amor que a mesma jurou a seu marido. O nome dele era Raoul; rapaz forte, bem afeiçoado. Conheceram-se pouco depois do casamento em feira de especiarias trazidas do oriente. Sim! Ela o traíra , emancipou sua vocação de mulher bela constituindo duas relações. Naquele dia, Gedara achou seu destino; precisou sua desculpa na saúde do terceiro e submeteu-se ao castigo merecível aos apunhaladores. Raoul e o mar lhe renderam a solidão.
Ah! Se nosso amigo soubesse. Mas não era forte, não como Gedara, e entregou-se por todo à terra. E os rejeitos de sua morte, ao sol germinaram duas belas palmeiras.Verdes, folhosas, fortes, potentes, assim como sua triste insistência de amar a quem lhe fora roubada duas vezes; uma por ombros mais fortes; outra pela "gentil" nossa mãe natureza...
O velho e bom homem naturalmente não sabia das traições, e assim faleceu, juramentado por uma ficção que ele jamais descobriu em vida.
Já dizia Nietzsche "O que não nos mata , nos torna mais fortes" , como o amor não é assim. Ele mata, enfraquece,só depois nos torna fortes.

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Conto do dia seguinte

Certo dia me ocorreu um caso bastante peculiar. Trata-se da vida de um moço. Era por volta de 4:00 horas da tarde; uma tarde bonita e quente . Estava eu no metrô, certo de que a viajem seria tranqüila e rápida como de costume. Mas não foi assim que se passou. Sabe aquelas pessoas chatíssimas que se dispõem a infortunar tímpanos mais educados? Pois bem, era esse o perfil de tal moço que sentava-se logo a minha esquerda.
– Bom dia Senhor! Que se passa de tão interessante no jornal que vês?– Perguntou o rapaz, curioso.
– Bom dia! Nada demais , só mais uma daquelas manchetes sensacionalistas sobre o saneamento no Rio de Janeiro.
Naquele momento eu precisava relaxar pois não havia pegado no sono em noite anterior e o trabalho me aguardava tão cedo chegasse. Portanto fui curto e objetivo, sem dar margem a comentários . Visto que o rapaz não entendeu o tom de minha voz, se pôs a continuar o diálogo.
– Não me diga! É lá que me destino a ficar. Tenho ótimas referências – sabia? Trabalho com construção, pois dia sim outro não estou a trocar de obra. – Informou entusiasmado.
– Senhor! É gentil seu interesse nessa conversa , contudo, já me vou muito cansado, então seria de graça sua que não me incomodasse. Por favor! Preciso estar descansado para o trabalho que me espera.
– Ora pois sim! Se está cansado conheço muitos médicos no Rio que poderiam indicar-lhe um bom terapeuta. Sabe! Não é do meu feitio dialogar abertamente com estranhos entretanto logo me apercebi que o senhor muito me olhava em cada passagem clara da viajem.
Sujeitinho pretensioso esse . Eu! Um homem trabalhador e honesto me pondo a olhar outro homem, que nem mesmo conhecia. Naquele instante segurei meu nervosismo e passei a ignorá-lo racionalmente. Sobretudo fui o mais anti-social o possível sendo bastante monossilábico. E mais uma vez ele punha-se a questionar.
– Senhor qual o seu nome?
– Não irias querer saber rapaz.
– Mas porque não?! Se estou a perguntar suponho ter interesse.
– E eu suponho não informar-lhe. – disse num tom sarcástico
– Então não precisamos nos apresentar.– Resmungou o rapaz contrariado : – Contudo não é preciso mesmo saber os nomes a fim de que se tenha uma boa interação. O que o Sr. faz ? Trabalha?
– Isso eu já havia dito . Sim.
– Ah! Eu esqueci. Hum! Então quer dizer que trabalha ein! Em quê ?
– Jornalismo.- respondi aborrecido.
A esta altura o metrô passava perto da serra e sob a leve inclinação podia se sentir o esforço da maquina, o que era bastante desconfortante , não bastasse a companhia de sujeito mais metido e inconveniente.
– Uma vez escrevi algo sabia! Agora não lembro mas posso inferir que era sobre amor. Só me faltava essa, um indivíduo nojento , falastrão e ainda apaixonado. Após esta última atravessou o corredor uma senhora conhecida minha dos tempos de infância, foi morar no Rio há muito tempo e por azar não me reconheceu. Era minha chance de livrar-me dele.
Levantei da minha cadeira e segui a rechonchuda senhora até o seu assento.
– Olá, Lenita! Como tens passado? Não lembras de mim? Ferreira. Filho da Marianinha!.
A dita mulher olhou pra mim com a vista baixa e débil e então voltou o queixo contra o peito descansando pescoço.
– Senhora! Sou eu, não lembras? Brincava às redondezas de suas residência, lá na rua 09, perto da praça.- falei aflito.
Neste exato instante interrompeu-me um homem já senil e com uma expressão nada amigável dispensou-me o desaforo:
– Ora! Não fique chateando a mulher! Não vês que ela é doente da cabeça, assim não pode conhecê-lo.
A decepção me fez voltar ao lugar de origem apavorado, pois sabia que aturar aquele sujeitinho novamente era suicídio. E de entrada apanhou-me com outra das suas antes mesmo de esperar que me sentasse.
– Conheces o Rio de Janeiro? É um lugar de beleza esfuziante sabias?
– É , eu sei. Já estive por lá algumas vezes.
– Então apreciou o Cristo redentor, é claro, afinal não há obra mais bela em tal lugar.
– Não . Não pude apreciá-lo.
– Mais o que o senhor esta dizendo. Não há pecado maior que o faça. Visitar o Cristo é de ordem primeira quando se está no Rio. Foi um presente da França, é considerável erro não tocá-lo.
Continuei calado e não respondi que não fora ao Cristo visto que o trabalho se encarregou de todo meu tempo.
– Ora pois senhor! Posso supor que por ser visivelmente elegante e abastado tenha ido a passeio correr nas calçadas do Leblon. Se não pôde , por favor, nem me contas, é outro gravíssimo pecado.
– Rapaz! Não me importa correr ou tocar em nada, venho ao Rio a trabalho e busco agora descanso , mais uma vez, o senhor poderia me deixar a sós com o pensamento.
Mas essas pessoas não conseguem regular sua conveniência. O rapaz então presenciando meu desconforto tratou de mudar de assunto. Absteve-se em cinco minutos de silencio mas logo pôs- se a me interrogar numa antipatia incessante justa aos interrogadores. Abaixou a vista e olhou fixamente a minha mala por algum tempo.
– O rapaz poderia parar de observar minha maleta?- gritei baixinho , quase furioso.
– Não se irrite! Estava a notar o nome francês impresso em sua marca. Já esteve em Paris – não é ? Espere ! Não responda. É claro que sim, logo soube quando o vi em porte distinto e roupa bem posta , sem falar de sua mala ao qual se nota ao longe a grife.
– Não espere que tome como lisonjeio suas acusações. Essa maleta foi comprada no subúrbio de São Paulo e minhas roupas em estilo nada diferenciam-se das suas.– levantei e falei alto e grosso: – O senhor está passando dos limites. Não percebes o quão inconveniente está sendo? Eu preciso de paz. Vim cansado em busca de sossego e você desde minha chegada enfurece-me com comentários estapafúrdios. Paciência...
Depois desta última investida pude notar que por longos 30 minutos não fui interceptado. Inclinei meu campo de visão até conseguir percebê-lo e observei que o rapaz agora se continha num pranto fino e silencioso. Pesou a consciência embora estranhasse tal comportamento para uma pessoa daquela idade. Então me aproximei.
– Olhas, rapaz! Se te fizeste em choro por minha ignorância peço-lhe desculpas. Afinal, não era essa minha intuição.
Choroso, o homem reclinou a cabeça entre os joelhos e colocou as mãos na nuca , apoiando os cotovelos sobres as coxas.
– O senhor não tem noção do mal que me causou.
– Pois não meu rapaz. É por isso que estou a me desculpar.
Foi então que ele anunciou que contar-me-ia a história de sua carta de amor. Sim! Aquela da qual havia comentado anteriormente. Não hesitei pois estava interessado em remediar minha estupidez.
– Era eu um jovem bem falante antes de conhecer a moça a quem me refiro. Tinha muitas mulheres, sempre disposto e galante. O fato é que após fitar os pobres olhos na mesma não mais pude controlar a depressão que veio.Passei a agir estranho, não conseguia mais interagir com os amigos. Noites a sós. Tive várias idéias de conquistá-la desde então. Descobri que não poderia aplicar nenhuma delas. A cada semana definhava mais em sonhos e comecei a adoecer, por fim, depois de um ano de espera decidi que deveria agir. – Neste momento o rapaz tomou fôlego e como se lamentasse e repudiasse sua história continuou : – Nos cinco meses que se seguiram planejei palavra por palavra e paulatinamente a cada vírgula construí uma carta linda e objetiva. – A partir daí tomou novamente seu pranto e pôs –se a declamar: “Tanta magia encanta . Tua beleza faz calar a voz única ainda não suplantada pelos intentos da solidão...”
Interrompi-o bruscamente e disse a ele que não precisaria entrar em detalhes da sua escrita e que por conseguinte continuasse sua historia.
– Pois bem! A carta estava pronta .Mas como entregá-la se nem as menos conseguia chegar perto da casa da moça. Meu platonismo tornou-se doente e obcecado. A oportunidade que me coube foi achar o amigo de um amigo que por ventura conhecia o irmão dela. Essa foi a parte que mais me tocou. Por vários meses este rapaz se negou a entregar a carta, sendo que , quando oportuno, sempre me extorquia alguns trocados. Por fim, depois de mais de 6 meses ele a entregou. Após este tempo fiquei enclausurado esperando um sinal que fosse ...da minha maior paixão. O sinal não veio. Só então descobri que seu irmão a muito havia posto fogo em minha sofrida declaração de amor. Não me contive em desespero e por 2 anos fiquei internado numa clínica de repouso na periferia de São Paulo. E agora estou aqui, neste trem , em busca daquele que arruinou meu sonho de felicidade, apenas para dizer-lhe o quanto a solidão aproveitou-se de meu sofrimento. E se possível vingar-me.
– E quem seria este cruel homem tão desafortunado de complacência à paixão. – Perguntei eu abismado.
O dialogo silenciou por um breve instante .
Então o rapaz disparou:
– Aquele homem senhor ... é você!!!!
Num misto de espanto e medo ergui-me do assento e automaticamente lembrei-me do fato. Era verdade! Aconteceu havia alguns anos mas por conta do tempo caíra em meu esquecimento. A culpa não foi minha. Imaginava eu naquela época ser alguma espécie de trote ou brincadeira qualquer. Alex (como tinha por nome), com os olhos estupefatos sorrateira e lentamente ergueu-se do seu banco , calmamente desembolsou um canivete da algibeira e caminhando em minha direção com o olhar fixo na expressão de medo que agora eu fazia, desferiu um profundo golpe contra o próprio peito e em silencio caiu sobre meu corpo deslizando até os pés onde estático já sem vida ficou.
Só depois desta insana tragédia pude me atentar ao motivo da insistência do rapaz. Ele apenas ensejava uma vez que fosse de me contar a versão de sua tristeza e assim manchar eternamente meus punhos com seu sangue constituindo assim sua tenebrosa vingança.
A mancha de sangue daquele dia nunca deixou minha gravata, tampouco abnegou-se de minha arrependida consciência...

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